UM OLHAR MAIS PROFUNDO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES. O amor da família que abre feridas – a “voz inconsciente” dentro de nós.

Uma esposa sente muita raiva, mas fala pouco. A sua filha adolescente enfurece-se facilmente com as pessoas e torna-se adita – “Vou expressar isso por ti, mãe”. Um marido quer deixar o casamento, mas não o faz. O seu filho, para surpresa de todos, comete suicídio – “Eu vou por ti, pai”. Uma mulher sofre dor no peito sem motivo aparente. Descobrimos numa constelação que a avó dela morreu de gripe (“cuspindo os pulmões”) quando a mãe da mulher tinha um ano – “Vou sofrer por ti, avó”. Um homem falha repetidamente para sustentar o negócio bem-sucedido que herdou do seu pai. Descobrimos que a aquisição original dos negócios foi algo obscuro, tirando vantagem injusta do proprietário anterior – “Eu compensarei essa injustiça sofrendo, pai”.

Estes exemplos podem ser encontrados na literatura de constelações e NÃO são declarações sobre tratamentos para as dependências, suicídio ou depressão diretamente. Na verdade, nestes exemplos de sofrimento ninguém estava ciente dos seus “emaranhados” com os antepassados.

As constelações identificam e mostram esses envolvimentos. As palavras citadas representam as vozes inconscientes que se escondem por traz das ações e dos comportamentos, e atestam o enorme poder do amor da criança. É um “amor cego” baseado num desejo inconsciente de “ajudar” um pai, uma mãe, ou de sofrer por um ancestral excluído. É bem-sabido que as crianças tentam compensar o que os pais negligenciam ou evitam. A criança dentro de nós age como se esse sofrimento pudesse expiar alguma injustiça. E, de fato, as constelações produzem fortes evidências de que existe uma “consciência familiar” – uma consciência que opera através das gerações e que equilibra a “justiça” dentro sistemas familiares de formas absolutamente surpreendentes.

As Constelações Familiares oferecem formas relativamente novas e únicas de “curar” a nossa vida interior. Elas revelam as conexões com dinâmicas ocultas; mostrando como o amor cego traz fardos pesados para outros descendentes. Depois que uma imagem dessa consciência familiar é exposta numa constelação, ela fornece os meios de libertação da vinculação aos conflitos inconscientes que estão por trás dos problemas.

Constelações Ativam a “Cura” Natural.

As constelações ativam o processo natural de cura do coração amoroso em nós. Elas revelam identificações inconscientes com membros anteriores da família que “nos emaranham”. Ou seja, herdamos não apenas traços físicos, mas também padrões emocionais e comportamentais. Todos carregamos dentro de nós um “plano” mental da nossa história familiar. Muitas vezes “carregamos” a dor daqueles que amamos, sendo assim afetados pela falta de amor no nosso sistema familiar.

É como se, quando um antepassado foi excluído (bode expiatório, abandonado, esquecido, etc.), a “consciência familiar” exigisse justiça. Pressiona o amor de um futuro filho ao serviço, “assombrando” a mente da criança, por assim dizer. A criança em nós, inconscientemente, identifica-se com um membro anterior da família, ficando assim enredada e em sofrimento.

Exemplos dessa herança inconsciente estão geralmente relacionados à adoção, suicídio, abortos, abandono, crime, deficiências, amores anteriores dos pais, mortes prematuras, segredos de família e vários lapsos de amor. Nas gerações posteriores, esses eventos podem causar doença, fracasso, dependência, ansiedade, “acidentes”, depressão, culpa, conflitos nos relacionamentos e uma série de outros problemas.

Constelações curam a mente inconsciente.

Os sistemas são maiores que a soma de suas partes. As constelações familiares são sistémicas: tratam os problemas que existem em várias gerações incluindo todos os elementos. São dinâmicas: descobrem lealdades ocultas e forças inconscientes. São “energéticas”, pois operam num um campo de forças e memórias inconscientes e silenciadas. Bert Hellinger (ver www.Hellinger.com), o criador das constelações familiares considera esse campo como “a alma da família” e afirma que a “mente-espírito” governa esses campos.Ele próprio integrou várias perspetivas (terapia familiar e esculturas familiares, psicanálise e psicodrama, programação gestalt e neurolinguística, etc.), com outros trabalhos científicos (campos morfogenéticos na biologia, efeitos transgeracionais nas famílias) e com tradições espirituais.

A fenomenologia é a base filosófica das constelações familiares de Hellinger. Exige a atenção rigorosa aos detalhes e foca no que é realmente visto no campo. Prefere a observação cuidadosa a generalizações, sendo este  trabalho escrupulosamente experimental, mudando constantemente as intervenções e testando sempre os seus efeitos.

O amor que adoece é o amor que cura.

Passar desse amor cego, capaz de adoecer e limitar a existência individual, para um amor maior, adulto, capaz de ver e compreender a realidade; capaz de se separar do passado, honrando os destinos anteriores; e capaz de canalizar o amor para dar continuidade à vida e melhorando a sua existência em nome de todos aqueles que antes de si não o puderam fazer, é a grande proposta das constelações.

Assim que esse amor maior se conecta, quando assistimos à nossa constelação, o nosso corpo torna-se mais leve, o peso desvanece e a esperança é fortalecida pela compreensão de que fazemos parte de um Todo.

O que nos cura é na verdade a consciência ao serviço da Vida.

Imagem: Shane Small